segunda-feira, 24 de outubro de 2011

História do Amapá - Noite de Autógrafos


A Amazônia é cortada por muitos cursos d‘água, que umedecem a terra e transportam: pessoas, objetos, notícias e idéias. As experiências vividas nesta vasta região são, portanto, tributárias destas conexões e fluxos, de compulsões internas e externas, de fronteiras móveis e sangrentas. Mas, no processo de invenção da Amazônia, comumente privilegiou-se facetas sedentárias e segmentadas das vivências dos sujeitos.
Assim, o caleidoscópico movimento das populações através da bacia amazônica deu lugar à projeção de dramas localizados como algo plenamente representativo de toda a História da Amazônia. Lacônica, a historiografia da Amazônia começou a sair da sombra de uma história pretensamente nacional — ponta de lança da hegemonia econômica e política de alhures. Fruto de não desprezíveis esforços locais, a primeira História da Amazônia trouxe em seu seio a marca das limitações dos esforços pioneiros.

Talvez, por um longo tempo ainda nos manteremos neste estágio historiográfico — como o arqueólogo, que primeiro
localiza e recolhe os cacos para depois religá-los. Nesta arqueologia dos fatos amazônicos, imensos setores estratigráficos ainda aguardam as hábeis mãos dos pesquisares. Os fragmentos de História do Amapá aqui apresentados possibilitam, de imediato, a construção de uma imagem menos incompleta de nosso passado.
Cada capítulo representa um esforço de liberar das garras do esquecimento um estilhaço iluminador desta imagem. A maioria dos autores deste livro é formada por um grupo de jovens pesquisadores que dialogam com as vanguardas teóricas e com as inquietações de seu tempo. São pessoas insatisfeitas com os efeitos dissolventes da mera busca de modismos, assentada na amnésia social. É na compreensão das heranças históricas locais que estes historiadores buscam o antídoto para os fatores que liquefazem a estrutura óssea dos movimentos sociais.

A obra que agora sai do prelo impressiona pelo seu tamanho e variedade de temas. Ela representa um novo e promissor momento da pesquisa histórica amapaense. Parte dos autores saiu do Amapá para cursar mestrado e doutorado (principalmente) nos centros acadêmicos do Sudeste. A aceitação destes pesquisadores nestes centros indica que aí se fortalece o espírito de hospitalidade em relação a um conhecimento histórico mais multifacetado. Outra parte dos autores é egressa dos cursos de especialização na área de história, atualmente oferecidos aos graduados do Estado. Estes ex-alunos aceitaram o desafio proposto por seus mestres de implodir de vez o mito de que o Amapá é uma terra desmemoriada. Também observamos, do lado de cá, a formação de um amplo público leitor interessado em conhecer a história local. É crescente o descontentamento em relação à falta de um sistemático estudo desta história nas redes estadual e municipais de ensino.
Indo ao encontro de tal demanda, esta coletânea parece ter a vocação de ocupar o lugar de obra de primeira grandeza no estudo de nossa história.

Esta história, no entanto, não é tão amapaense quanto à primeira vista poder-se-ia pensar. Isto porque as conexões sociais hibridizam a experiência local, saturando-a de elementos exógenos. Neste sentido, a invenção do Amapá é resultado de tensas negociações não territorializadas e multilaterais. Nas páginas a seguir, por exemplo, encontramos casos de ressonâncias e apropriações das experiências ocorridas dentro do losango amapaense. Os grandes debates em torno do que ocorria no Amapá, das potencialidades e limitações deste lugar e do que deveria ser feito para o seu desenvolvimento demonstram o recorrente e calculado influxo do pensamento político hegemônico brasileiro na redefinição do futuro dos que aí viviam (e vivem).

O avanço do grande capital e as decorrentes lutas sociais havidas no Amapá igualmente evidenciam as conexões entre o lado de dentro e de fora de uma história que é local sem ser localista. Migrações, relações com o grande comércio internacional, adoção de modelos estranhos ao modo de vida dos autóctones e outros figuram nesta coletânea para revelar uma região prenhe de fluxos e refluxos. Eis o prenúncio de uma nova historiografia da Amazônia.

Portanto, do lado de cá do rio Amazonas, neste pedaço do Brasil chamado Amapá, existem histórias que devem ser construídas e conhecidas para revelar uma imagem mais multiculturalizada deste país. Histórias entronizadas na historiografia brasileira por meio do esforço corajoso e, amiúde, teimoso de pesquisadores que têm enfrentado inúmeros obstáculos. Rompendo silêncios e explorando interstícios, os autores deste livro, mais do que meramente registrar fatos pretéritos (ou fragmentos do passado), desejam que a história (nos dois sentidos do termo) seja outra.

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